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Os financiamentos para usinas de energia alternativa cresceram mas o mercado tem se mostrado instável para o investidor

0 Comments 🕔14.jun 2026

Os financiamento para renováveis cresce 10,6% em 2025, mas segue 22% abaixo do pico histórico de 2022. O levantamento é da aponta CELA – Clean Energy Latin America), especializada para o setor O volume de financiamento para projetos de geração renovável no Brasil somou R$ 36,3 bilhões em 2025, resultado ainda 22% abaixo do pico histórico de R$ 46,3 bilhões registrado em 2022, segundo levantamento da CELA (Clean Energy Latin America), especializada em assessoria financeira e consultoria estratégica para o setor de transição energética. O dado revela que, apesar da alta de 10,6% sobre 2024, que também ficou abaixo do patamar de 2022, o setor de renováveis ainda não recuperou o patamar anterior à combinação de juros altos, modulação e curtailment que vem pesando sobre novos investimentos desde 2023.

A queda em relação ao pico não é uniforme: reflete dinâmicas distintas em cada tecnologia, com a geração distribuída solar mostrando maior resiliência, a geração centralizada solar sob pressão crescente, a eólica em recuperação após mínimo histórico em 2024, e o armazenamento em fase de estruturação regulatória.

A geração distribuída solar manteve-se na faixa de R$ 13 a 14,7 bilhões entre 2023 e 2025, patamar inferior ao pico de R$ 21,8 bilhões de 2022, mas consistentemente superior à geração centralizada solar em todos os anos recentes. O pico de 2022 foi resultado direto da corrida pelo direito adquirido da Lei 14.300, que instituiu o marco legal da micro e minigeração distribuída: quem protocolasse conexão até janeiro de 2023 mantinha as regras antigas de compensação tarifária até 2045. Encerrado o prazo, o volume naturalmente recuou.

A resiliência do segmento após esse ajuste tem duas explicações. A primeira é estrutural: ao contrário da geração centralizada, o retorno da GD local é pouco impactado pela nova regulação devido à simultaneidade entre geração e consumo, o que reduz o impacto da perda de compensação dos créditos, mantendo o payback atrativo para o consumidor. A segunda é a carteira remanescente de projetos remotos com direito adquirido: usinas de geração compartilhada e autoconsumo remoto protocoladas antes de janeiro de 2023 que continuaram sendo financiadas nos anos seguintes.

Vale destacar ainda que o volume de GD solar provavelmente subestima o crescimento do armazenamento: sistemas de baterias contratados junto com painéis solares acabam sendo classificados pelos bancos dentro da linha de financiamento fotovoltaico, tornando parte da expansão do BESS invisível nas estatísticas.

A geração centralizada solar recuou de R$ 15,1 bilhões em 2022 para R$ 9,0 bilhões em 2025, pressionada por dois vetores simultâneos. O primeiro são os juros: com a Selic oscilando entre 13,75% e 14,25% nos últimos anos, o maior patamar desde 2016, o custo de capital dos projetos subiu significativamente. O segundo é a modulação, característica intrínseca do perfil de geração solar: a produção se concentra no período diurno, o que, em um sistema com participação crescente da fonte, gera excesso de oferta nesse horário e pressiona os preços de energia justamente quando as usinas estão operando. Trata-se de um desafio técnico-operacional que outras tecnologias e formas de operação do sistema, como a eólica e o armazenamento, estão sendo chamadas a resolver.

O problema é agravado pelo perfil de contratação do mercado livre: grandes consumidores exigem entrega flat de energia ao longo de todo o dia, o que exige que usinas solares recorram a instrumentos de mercado nos horários de pico, corroendo margens e dificultando o fechamento financeiro dos projetos. O curtailment atingiu em média 17,1% das usinas entre abril de 2024 e março de 2025, e a ausência de mecanismo de ressarcimento pelos cortes forçados é hoje uma das principais travas regulatórias para novos investimentos: sem previsibilidade de receita, bancos e investidores elevam a percepção de risco e tornam-se mais conservadores na concessão de crédito ao segmento.

A energia eólica registrou R$ 12,5 bilhões em financiamentos em 2025, alta de 40% sobre 2024, recuperação após o mínimo da série histórica, quando o segmento também foi afetado por juros altos e curtailment. Se no passado o crescimento da eólica era sustentado principalmente por leilões regulados e linhas de financiamento de longo prazo dos bancos de desenvolvimento, hoje o motor são o mercado livre de energia e a autoprodução, que ampliaram significativamente a base de projetos viáveis fora do ambiente regulado.

À medida que a solar pressiona os preços no período diurno, geradores e grandes consumidores passaram a buscar a eólica para compor portfólios capazes de entregar energia flat ao longo do dia. Com perfil de geração mais distribuído e maior produção em períodos de baixa irradiação, a eólica passou a desempenhar papel estratégico na composição de contratos do mercado livre, e essa demanda estrutural sustenta os novos financiamentos.

Os R$ 126 milhões registrados em financiamentos BESS em 2025 marcam crescimento frente o ano de 2024, mas não refletem a real expansão da tecnologia no país, ainda distantes do pico de R$ 280 milhões registrado em 2023, quando emissões de debêntures e FIPs relevantes impulsionaram o segmento. A oscilação ao longo da série reflete menos o ritmo real de adoção da tecnologia e mais a irregularidade dos instrumentos de captação utilizados, que variam entre bancos domésticos, mercado de capitais e financiadores multilaterais, nem todos capturados de forma uniforme pela metodologia do estudo.

A isso se soma a queda expressiva de capex: os custos dos sistemas de armazenamento recuaram 90% desde 2010, com alguns modelos caindo pela metade só em 2024, reduzindo o valor financiado por unidade instalada mesmo com crescimento físico do mercado. Adicionalmente, parte relevante dos sistemas de baterias contratados junto a projetos de geração distribuída segue sendo classificada pelos bancos dentro da linha de financiamento fotovoltaico, o que torna uma parcela da expansão do BESS invisível nas estatísticas.

A expectativa é que os primeiros leilões dedicados exclusivamente ao armazenamento, previstos para 2026, marquem uma nova fase de escala para o segmento, com impacto direto nos volumes de financiamento dos próximos estudos.

Camila Ramos, CEO da CELA”O setor renovável brasileiro vive um momento de transição complexa. O financiamento ainda não retornou ao patamar de 2022 e os desafios são reais: juros altos, curtailment sem mecanismo de ressarcimento e um mercado que ainda busca os instrumentos adequados para precificar e contratar a complementaridade entre fontes. A boa notícia é que eólica e armazenamento estão ganhando papel estratégico exatamente por oferecerem as soluções que o sistema elétrico precisa, e isso deve se refletir nos volumes de financiamento dos próximos anos”, afirma Camila Ramos, CEO da CELA.

 

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