Os bioinsumos podem reduzir a dependencia brasileira do fertilizante estrageiro
A alta nos preços, a redução da oferta global de fertilizantes agrícolas e a forte dependência do Brasil na importação desses insumos, com cerca de 88% do volume utilizado no país proveniente do exterior, especialmente de regiões geopoliticamente instáveis, têm preocupado o agronegócio nacional. Em um momento crucial para o setor, em que os produtores iniciam as compras de insumos para a próxima safra, cresce a busca por alternativas capazes de reduzir essa dependência externa — como é o caso dos bioinsumos, tecnologias apontadas pelo próprio Plano Nacional de Fertilizantes como ferramentas complementares e estratégicas.
Com os impactos provocados pelas restrições no fluxo logístico do Estreito de Ormuz, corredor marítimo por onde passa cerca de um terço do comércio mundial de fertilizantes, o cenário que já vinha sendo pressionado pelo conflito entre Rússia e Ucrânia tornou-se ainda mais instável. Mesmo com perspectivas de retomada gradual das operações, os efeitos sobre preços, disponibilidade e custos logísticos devem permanecer ao longo dos próximos meses, reforçando a busca por tecnologias capazes de aumentar a eficiência nutricional das lavouras e reduzir parte da dependência de insumos importados. Segundo dados da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), entre fevereiro e abril de 2026 o Brasil importou 4% menos fertilizantes e pagou 16% a mais pelo volume adquirido, enquanto MAP acumulou alta de 20% no período.
“O Brasil possui elevada dependência externa em nutrientes como nitrogênio, fósforo e potássio, o que expõe o produtor rural às oscilações internacionais de preço, oferta e logística. Embora os bioinsumos não eliminem totalmente a necessidade dos fertilizantes minerais, eles ajudam a reduzir parte dessa dependência ao possibilitarem o suprimento de alguns nutrientes do ambiente e aumentarem a eficiência e aproveitamento nutricional. Nesse cenário, os bioinsumos passam a ser ferramentas essenciais para garantir maior segurança, estabilidade de custos e soberania agrícola”, defende Thiago Delgado, presidente da ANPII Bio (Associação Nacional de Promoção e Inovação da Indústria de Biológicos).
Delgado destaca ainda que o setor nacional de bioinsumos já possui forte protagonismo no cenário agrícola global, movimentando mais de R$ 7 bilhões por safra no Brasil e concentrando cerca de 50% do mercado latino-americano de bioinsumos. Segundo dados apresentados em recente evento de inteligência de mercado promovido pela ANPII Bio, além de o país já figurar entre os três maiores mercados mundiais do segmento, a indústria brasileira responde por 85% da produção de bioinsumos comercializados nacionalmente, consolidando o Brasil como uma das principais referências globais no desenvolvimento dessas tecnologias.
“Enquanto projetos ligados à ampliação da produção doméstica de fertilizantes minerais demandam elevados investimentos e maturação de longo prazo, as tecnologias biológicas já estão disponíveis comercialmente. Hoje, o Brasil já conta com um setor consolidado e em expansão, capaz de desenvolver soluções cada vez mais avançadas, adaptadas às condições tropicais locais e às necessidades do produtor rural”.
Os bioinsumos são tecnologias desenvolvidas a partir de microrganismos, extratos vegetais e outros compostos de origem biológica, capazes de atuar em diferentes processos ligados ao desenvolvimento vegetal e à eficiência do manejo agrícola. No contexto da crise global dos fertilizantes, essas tecnologias vêm ganhando espaço principalmente por contribuírem para o melhor aproveitamento dos nutrientes já presentes no sistema produtivo, reduzindo perdas e aumentando a eficiência da adubação mineral.
Nesse contexto, os bioinsumos atuam em diferentes frentes ligadas à eficiência nutricional das lavouras, incluindo a fixação biológica de nitrogênio (FBN), a solubilização de fósforo e potássio, o estímulo ao crescimento radicular e o aumento da absorção de água e nutrientes. “O Brasil já possui, inclusive, casos consolidados e reconhecidos internacionalmente no uso dessas tecnologias, especialmente na soja, onde os microrganismos ligados à fixação biológica do nitrogênio foram decisivos para reduzir a dependência de fertilizantes nitrogenados e ampliar a competitividade da produção nacional”, continua o presidente da ANPII Bio. Na cultura, segundo a Embrapa, a inoculação com bactérias do gênero Bradyrhizobium permite suprir biologicamente a demanda de nitrogênio das plantas, reduzindo os custos para cerca de R$ 8 por hectare, frente a aproximadamente R$ 906 por hectare na adubação nitrogenada convencional.
O tema ganhou ainda mais projeção internacional em 2025, quando a pesquisadora da Embrapa, Mariangela Hungria, recebeu o World Food Prize, considerado o “Nobel da Agricultura”, por suas pesquisas relacionadas à FBN e ao uso de microrganismos como alternativa parcial aos fertilizantes. Hoje, essas tecnologias estão presentes em cerca de 90% das lavouras de soja brasileiras e geram economia estimada entre US$ 25 bilhões e US$ 40 bilhões anuais aos agricultores do país. Além do Bradyrhizobium, os estudos conduzidos pela pesquisadora também envolvem Azospirillum brasilense, bactéria associada à promoção de crescimento radicular, maior absorção de água e nutrientes e maior tolerância das plantas a estresses climáticos.
“O reconhecimento internacional reforça que a discussão sobre bioinsumos não está restrita à agenda ambiental, mas ocupa posição central no debate científico global sobre segurança alimentar, eficiência produtiva e resiliência agrícola. O Brasil reúne condições estratégicas únicas para liderar essa agenda, tanto pela biodiversidade tropical quanto pela estrutura de pesquisa construída nas últimas décadas”, ressalta Delgado. Ele destaca ainda que, com a aprovação da Lei dos Bioinsumos (Lei nº 15.070/2024), atualmente em processo de regulamentação, a indústria nacional passa a contar com um marco legal voltado à ampliação da inovação e da competitividade do setor, criando um ambiente mais favorável para o desenvolvimento de novas tecnologias biológicas, expansão da produção nacional e ampliação do uso dessas soluções no campo.
Hoje, o segmento brasileiro de bioinsumos reúne mais de 200 empresas registradas no MAPA, com crescimento superior a 50% entre 2022 e 2025, além de mais de 1.500 produtos registrados, nas diferentes categorias, segundo dados da própria entidade. “Já possuímos escala, capacidade tecnológica e estrutura produtiva para responder à expansão dessa demanda, consolidando os bioinsumos como um componente estratégico da segurança agrícola nacional. Não se trata de substituir fertilizantes minerais, mas de construir sistemas produtivos mais eficientes, menos vulneráveis a crises externas e mais alinhados aos desafios econômicos, ambientais e produtivos da agricultura moderna”, conclui o presidente da ANPII Bio.

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