As abelhas podem identificar as caixas da colônia pela cor
A cor das caixas e na orientação das entradas ajudam as abelhas-sem-ferrão a localizar corretamente suas colônias. A descoberta foi feita pelos pesquisadores da Embrapa e da Universidade de Bristol. Essa descoberta ajuda a evitar o comportamento em que abelhas entram por engano em colônias vizinhas, gerando a possibilidade de disseminação de doenças, parasitas e resíduos de defensivos agrícolas.
Boas práticas de manejo ajudam a mitigar esse problema. Caixas coloridas, por exemplo, reduziram em 21,9%, enquanto a alternância na orientação das entradas diminuiu o índice em 11,4%. A pesquisa utiliza microetiquetas de radiofrequência, que permitem acompanhar individualmente cada abelha e detectar os eventos e a trajetória das abelhas entre os ninhos.
A exposição a pesticidas também está associada a mudanças no comportamento das abelhas, reduzindo as viagens para coleta de alimentos. Os cientistas da Embrapa Meio Ambiente (SP) e da Universidade de Bristol, no Reino Unido, mostram que práticas simples e de baixo custo podem reduzir os erros de navegação de abelhas-sem-ferrão nos meliponários. A proximidade dos ninhos e a semelhança entre eles podem confundir as operárias, levando-as a entrar na colônia errada ao retornar do campo. À primeira vista, o erro parece pequeno, mas, quando ocorre com frequência, o comportamento conhecido como drifting pode favorecer a disseminação de patógenos, parasitas e até resíduos de defensivos agrícolas entre as colônias, comprometendo sua saúde e a produção de mel.
A pesquisa é conduzida por Ana Paula Cipriano, doutoranda da universidade britânica e integrante do Bristol Bee Group, sob a supervisão do professor Christoph Grüter e coorientação do pesquisador da Embrapa Meio Ambiente Cristiano Menezes. Foram avaliadas duas espécies brasileiras de abelhas-sem-ferrão, a Scaptotrigona depilis e a Melipona quadrifasciata, importantes polinizadoras de culturas agrícolas e da vegetação nativa dos ecossistemas tropicais.
Pela primeira vez, pesquisadores avaliaram experimentalmente como o arranjo dos ninhos influencia a frequência de erros de navegação entre colônias de abelhas-sem-ferrão. Os resultados mostram que estratégias simples de manejo são capazes de reduzir o drifting e seus impactos.
Os testes compararam diferentes configurações de caixas de M. quadrifasciata, a abelha mandaçaia. Quando todos os ninhos possuíam a mesma cor e as entradas estavam voltadas para a mesma direção, a taxa de drifting atingiu 59,5%. Ao manter as caixas iguais, mas alternar a orientação das entradas, o índice caiu para 48,1%. Já quando as caixas receberam cores distintas, mesmo mantendo as entradas voltadas para o mesmo lado, a taxa foi reduzida para 37,6%.
Os resultados demonstram que mudanças simples podem gerar efeitos significativos. A utilização de caixas coloridas reduziu o drifting em 21,9% em comparação ao arranjo tradicional, enquanto a alternância da direção das entradas proporcionou redução de 11,4%.
Segundo os pesquisadores, os dados mostram que a orientação das abelhas depende não apenas da distância entre os ninhos, mas também de referências visuais e espaciais utilizadas durante o retorno à colônia. “É a primeira vez que analisamos o efeito do arranjo dos meliponários sobre o comportamento de drifting. Apenas pintando as caixas ou invertendo a orientação das entradas já observamos uma redução significativa dos erros de navegação”, destaca Menezes.
A descoberta tem potencial para gerar benefícios práticos aos meliponicultores. Além de diminuir a circulação de doenças e parasitas entre colônias, o uso de pistas visuais e diferentes orientações pode facilitar o manejo dos ninhos em espaços reduzidos.
“Esse resultado mostra que não é apenas a distância entre as caixas que reduz o drifting. As abelhas também utilizam pistas visuais e a orientação das entradas para encontrar sua colônia. Isso pode facilitar a organização dos meliponários e até a extração de recursos produzidos pelas abelhas, como o mel”, acrescenta o pesquisador.
Outro eixo do estudo usa a tecnologia de microetiquetas de radiofrequência, ainda pouco utilizada no Brasil para estudos com abelhas-sem-ferrão de pequeno porte. As chamadas micro tags, produzidas na Alemanha, são fixadas individualmente no dorso dos insetos com uma cola sem odor e representam cerca de 11% do peso corporal das abelhas. Os sensores registram os horários de saída e retorno, a duração dos voos, a frequência de entradas em colônias vizinhas e os períodos de maior atividade. As informações também podem ser cruzadas com dados ambientais, como temperatura e umidade. “A tecnologia funciona como uma espiã que acompanha cada movimento da abelha, permitindo enxergar detalhes do comportamento que antes eram invisíveis”, diz a pesquisadora da universidade britânica.
Segundo Cipriano, o objetivo é entender como diferentes estressores, químicos e ambientais, interferem na capacidade de orientação das abelhas e aumentam a chance de confundirem as colônias. “Quando isso acontece com frequência, o drifting deixa de ser um evento isolado e passa a representar um risco coletivo”, constata.
Entre fevereiro e abril de 2025 e 2026, os pesquisadores avaliaram também os efeitos do inseticida imidacloprido e do herbicida glifosato, dois produtos amplamente utilizados na agricultura. As abelhas S. depilis foram expostas a doses consideradas realistas, compatíveis com aquelas encontradas em condições de campo.
Os resultados preliminares, ainda não publicados, mostram que a exposição química modifica o padrão de voo das operárias. Mesmo quando retornam aos ninhos, elas realizam menos viagens e permanecem menos tempo em atividade. “Com os pesticidas, elas continuam errando, mas passam a fazer menos viagens. Quando combinamos inseticida e glifosato, observamos viagens pelo menos 34% mais curtas”, observa Cipriano.
Segundo Menezes, os resultados são semelhantes aos observados em pesquisas com a abelha-europeia Apis mellifera. “O glifosato pode afetar a orientação espacial. Quando a abelha perde referências, aumenta a chance de entrar em uma colônia vizinha. Isso pode facilitar a circulação de patógenos e comprometer o equilíbrio das colônias”, explica.
Embora o drifting seja um comportamento natural e ocasional, ele pode se transformar em uma importante rota de transmissão de patógenos quando ocorre em ambientes com alta densidade de ninhos ou sob influência de fatores que prejudicam a orientação das operárias. “O nosso objetivo é saber mais sobre as abelhas brasileiras e gerar dados que ajudem a protegê-las. Elas são essenciais para a biodiversidade e para a agricultura”, ressalta Cipriano.


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