O produtor de leite pode ganhar mais oferecendo, aos laticínio, um leite livre de contaminação com bactérias
Uma bonificação pela qualidade do leite estimula ainda mais os produtores rurais a adotarem as boas práticas na coleta de leite. Com uma matéria-prima de melhor qualidade, a produtividade da agroindústria aumentou, resultando numa relação de ganha-ganha e o produtor tem sua renda melhorada.
Para dar mais qualidade ao leite, foi realizado um esforço conjunto entre a pesquisa científica da Embrapa, produtores, técnicos e o setor industrial para transformar a pecuária leiteira em Rondônia. A cadeia produtiva do leite em Rondônia envolve aproximadamente 26 mil famílias, com predomínio de pequenos e médios produtores. O estado é o 11º maior produtor de leite no Brasil com uma produção, em 2024, de 619 milhões de litros, o que representa a maior produção da Região Norte, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
O estudos iniciados em 2013, entre os produtores do Estado, revelaram que a qualidade do leite produzido em Rondônia e entregue às indústrias lácteas deu um salto significativo: a conformidade dos tanques com o limite de contagem bacteriana do leite (CPP – contagem padrão em placas) no período chuvoso subiu de 36% em 2015 para 72,6% em 2022. Essa evolução é reflexo de uma redução significativa da média da contagem bacteriana, que caiu 69,1% no período das águas e 76,7% na seca. Na análise, foram avaliados 566 tanques em 2015 e 536 em 2022, localizados nas principais microrregiões do estado.
Os dados indicam maior efetividade na execução do Programa Nacional da Qualidade do Leite (PNQL) com melhor adequação e conformidade de práticas e processos da cadeia produtiva leiteira para atendimento a requisitos higiênico-sanitários estabelecidos em normativas.
Segundo Juliana Alves Dias, a pesquisadora da Embrapa que coordenou os estudos, o avanço das ações foi motivado pela atualização da legislação, como as Instruções Normativas 76 e 77, do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), em 2019. Também é resultado de um processo de sensibilização de todos os elos da cadeia produtiva, aliado a ações integradas de transferência de tecnologias. “Nesse contexto, os estudos e as ações convergiram para dar subsídios ao estado. Trabalhamos na identificação dos principais desafios e no direcionamento de estratégias específicas, mostrando que a parceria entre o setor público e privado é o caminho para a efetividade das ações”, explica.
Um ponto crítico identificado foi a presença de “carretinhas” — transporte intermediário do leite do produtor até o tanque coletivo. Atrasos no resfriamento e falhas na higienização dos latões utilizados nesse trajeto elevaram a contagem bacteriana. Atualmente, 78% dos produtores de Rondônia estão vinculados a tanques coletivos. Como a pesquisa demonstrou que tanques com mais de cinco produtores apresentaram maior risco de contaminação, é preciso que a indústria reavalie essa estratégia.
De acordo com Juliana Dias, falhas no manejo sanitário das propriedades aumentaram os riscos de mastite no rebanho. Um dado que chama a atenção é que rebanhos com maior grau de tecnificação — como aqueles que utilizam ordenha mecânica e animais especializados — apresentaram maior probabilidade de ocorrência de mastite bovina. O alerta é reforçado pelo monitoramento temporal da contagem de células somáticas (CCS) em leite de tanques vinculados às indústrias: a comparação entre os dados de 2015 e 2022 demonstrou uma tendência de aumento na média de CCS em todo o estado. “Esses resultados indicam que o setor enfrenta novos desafios que exigem ações mais efetivas de prevenção e controle da saúde do úbere, especialmente em rebanhos mais tecnificados”, destaca a pesquisadora
As pesquisas, que seguem em execução, geraram tanto dados sobre a CPP como diagnósticos. Apontaram fatores de risco e indicaram soluções para superar desafios e melhorar a qualidade do leite no estado, de modo a auxiliar gestores e produtores locais a atingirem os padrões sanitários exigidos pela legislação brasileira. Esse conjunto de resultados está descrito no documento técnico “Contribuições da pesquisa e transferência de tecnologia à execução do Programa Nacional de Qualidade do Leite (PNQL) em Rondônia”, publicado pela Embrapa. A iniciativa está alinhada ao Objetivo de Desenvolvimento Sustentável – ODS 12 proposto pela ONU, que visa garantir padrões sustentáveis de produção e consumo.
A pesquisa em Rondônia permitiu concluir que a adoção de práticas simples é a chave para a transformação da qualidade do leite no estado. Em 2017 e 2018, quatro propriedades que representavam as condições de produção prevalentes no estado foram selecionadas para o estudo de validação dos protocolos de higiene. Com base em estudos anteriores, chegou-se aos perfis dessa amostra, que inclui diferentes cenários: da ordenha manual em piquetes abertos ao sistema mecânico “balde ao pé”.
Para que o conhecimento da pesquisa chegasse até o campo, vídeos educativos, documentos orientadores e notas técnicas foram elaboradas para auxiliar técnicos, produtores e indústrias na implementação dessas práticas no campo. Além disso, os resultados e as recomendações dos estudos foram apresentados em eventos como cursos, treinamentos, oficinas e palestras técnicas em todo o estado. Foram mais de cinco mil pessoas impactadas pelas ações de pesquisa, capacitações, oficinas e palestras realizadas em 42 municípios, ou seja, cerca de 80% dos municípios de Rondônia.
A melhoria da qualidade do leite é atribuída a um conjunto de ações integradas, desde a estruturação laboratorial, o diagnóstico da situação da qualidade do leite, o direcionamento de recomendações e a implementação de boas práticas no campo. A pesquisadora afirma que a parceria com as indústrias lácteas foi fundamental para transformar os resultados de pesquisa em melhorias reais na qualidade do leite, atuando na análise estratégica de dados, na capacitação das equipes de campo e na comunicação direta com o produtor.
“Valorizamos o trabalho do produtor rural que queira se adequar e, quando o leite chega com qualidade à indústria, nós temos uma maior rentabilidade em quilo de massa de queijo produzido. Se antes eu precisava de dez litros de leite para produzir um quilo de queijo, hoje produzo um quilo de queijo com 9,2 litros de leite. Isso em escala, por dia, impacta muito. É uma parceria em que todos se beneficiam”, afirma Alessandro Rodrigues, proprietário do Laticínio Joia, de Rondônia.


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