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Uma nova técnica para avaliar a contaminação da água com herbicidas no trato da cana-de-açucar

0 Comments 🕔30.set 2026

O trabalho oferece critérios práticos para o manejo de herbicidas, e o modelo pode ser aplicado a outras culturas agrícolas. Os resultados da nova tecnologia são relevantes para produtores de cana, uma vez que certificações internacionais já começam a exigir esse cálculo no nível de contaminação da água aplicada na lavoura com a irrigação.

Estudo da Embrapa Meio Ambiente (SP) propõe um modelo para calcular a pegada hídrica cinza — indicador que estima o volume hipotético de água necessário para diluir poluentes até concentrações seguras — que considera o efeito conjunto de diferentes herbicidas presentes nos recursos hídricos. Ao aplicar a abordagem a produtos utilizados na cultura da cana-de-açúcar, a pesquisa constatou que a estimativa pode ser até 116 vezes maior que a obtida pelo método tradicional.

Enquanto o método tradicional considera cada herbicida isoladamente, o modelo proposto leva em conta seus mecanismos de ação e efeitos conjuntos sobre organismos aquáticos. A pegada hídrica cinza não corresponde ao consumo real de água, mas a um volume virtual utilizado para dimensionar o impacto da contaminação em recursos hídricos.

A pesquisa, desenvolvida pelo pesquisador Lourival Paraíba, da Embrapa Meio Ambiente, não trata da mistura de produtos na calda — preparação feita no tanque do pulverizador para aplicação na lavoura —, mas da ocorrência conjunta de diferentes herbicidas nos recursos hídricos por consequência de aplicações agrícolas.

Na agricultura, parte dos produtos aplicados pode ser transportada pela chuva até rios e córregos ou infiltrar-se no solo e alcançar águas subterrâneas. Nesse percurso, resíduos de diferentes herbicidas podem ocorrer simultaneamente nos recursos hídricos, situação considerada pelo novo método de cálculo.

Segundo Paraíba, essa dimensão do impacto ambiental ainda é pouco percebida no campo. “A pegada hídrica cinza é, em essência, a conta que a natureza paga para limpar a água supostamente contaminada pela agricultura,” explica.

O pesquisador ressalta que o indicador vem ganhando importância também em sistemas de certificação agrícola. “Para os produtores de cana, isso é relevante porque as certificações internacionais — inclusive as que habilitam a exportação de etanol — já começam a exigir esse cálculo”, afirma.

O estudo analisou 17 herbicidas pertencentes a sete grupos de classificação do Comitê de Ação contra a Resistência a Herbicidas (HRAC, na sigla em inglês). Ao comparar o método tradicional, conhecido como H-model, com o modelo proposto na pesquisa, a diferença encontrada foi expressiva.

Com o novo modelo, a estimativa da pegada hídrica cinza dos 17 herbicidas foi cerca de 116 vezes maior do que a obtida pelo método tradicional. “Quando calculamos a pegada hídrica cinza total dos 17 herbicidas pelo H-model, chegamos a 49,5 bilhões de metros cúbicos. Quando usamos o modelo que propusemos, o valor sobe para 5,74 trilhões de metros cúbicos”, observa Paraíba.

A diferença não ocorre simplesmente porque o modelo abarca mais produtos, mas sim porque considera o comportamento conjunto dos herbicidas de acordo com seus mecanismos de ação. De acordo com o pesquisador, o método convencional trata cada herbicida de forma isolada. “O problema é que na cultura da cana são usados até 17 herbicidas diferentes em uma safra nacional”, afirma.

Ao incorporar a ocorrência conjunta dos produtos nos recursos hídricos e considerar dados de toxicidade para organismos aquáticos (algas, crustáceos e peixes), o novo modelo produz estimativas mais elevadas. Nas simulações realizadas, em 95% dos casos a diferença em relação ao método tradicional variou de 69 a 195 vezes.

De acordo com o cientista, a pesquisa apresenta três recomendações principais para os produtores de cana-de-açúcar que desejam reduzir a pegada hídrica cinza associada ao uso de herbicidas.

A primeira é priorizar herbicidas de grupos HRAC pequenos ou isolados, como glifosato (G), isoxaflutol (F1) e clomazona (F4), classificados no estudo entre aqueles de menor impacto sobre a água.

A segunda é evitar a mistura de dois ou mais herbicidas pertencentes ao mesmo grupo HRAC em uma mesma aplicação, uma vez que seus efeitos podem se somar.

A terceira é , quando for necessário escolher produtos com determinado  mecanismo de ação, empregar apenas um representante do grupo, evitando a combinação de dois ou mais produtos dessa classificação.

“Essas três regras têm o potencial de reduzir substancialmente a pegada hídrica cinza sem comprometer o controle de plantas daninhas – desde que o manejo integrado seja feito com critério e com orientações agronômicas,” ensina Paraíba.

 

 

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