Pesquisadores vão criar novas tecnologias a partir da necessidade dos produtores: é o projeto de tecnologia Semear Digital
O projeto, financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), trabalha com dez pilotos em diferentes regiões do Brasil, chamados Distritos Agrotecnológicos (DATs), envolvendo sistemas produtivos e realidades distintas, como café no Sudeste, fruticultura no Sul, açaí no Norte, licuri e mel no Nordeste e integração pecuária-floresta no Centro-Oeste.
O diferencial do modelo está em começar pelas demandas dos produtores, associações e cooperativas, e não pela tecnologia. A equipe identifica as necessidades, os gargalos de conectividade e de capacitação e, a partir desse diagnóstico, avalia como ferramentas como inteligência artificial, blockchain e internet das coisas podem contribuir para reduzir custos, melhorar a gestão, aumentar a eficiência e agregar valor à produção, além de apoiar diferentes atividades dentro da propriedade. A experiência também gera uma metodologia que pode ser replicada em outros locais.
Um dos exemplos do Semear Digital é o trabalho com pequenos e médios produtores de café em Caconde (SP). A demanda inicial da associação local era uma máquina de torrefação compartilhada. A partir dela, foram identificadas outras necessidades, como energia, conectividade, capacitação e produção de bioinsumos.
A experiência contribuiu para a transformação da associação em cooperativa e para a conquista do selo de café orgânico. A piscicultura também surgiu como uma alternativa para a diversificação de renda, integrada à atividade cafeeira local. A partir do Semear Digital, soluções digitais como aplicativos móveis vêm sendo aprimorados para auxiliar os produtores na gestão mais eficiente da produção de peixes.
Outra experiência do projeto acontece em Boa Vista do Tupim, na Bahia, onde duas novas cooperativas de agricultores foram constituídas na região, em setembro: a Florada do Sertão e a Raízes do Tupim, voltadas para as cadeias produtivas do mel e do licuri. A organização por meio das cooperativas representa estratégia importante para viabilizar o acesso a inovações que atendam às demandas locais.
Ao longo de dois anos, os agricultores passaram por processos de formação em cooperativismo. “Nesse período, nós auxiliamos no restabelecimento do processo de confiança e na construção das cooperativas, mais adequadas à comercialização de produtos”, explica Francine de Camargo Procópio, bolsista do Semear Digital vinculada à Esalq/USP, que vem coordenando os trabalhos.
A atuação em Boa Vista do Tupim também envolve a produção de mel. Como parte desse trabalho, foi criada uma associação de mulheres voltada à atividade. A equipe do projeto participa da formação dos produtores, incluindo orientações relacionadas à estrutura da casa do mel e aos procedimentos necessários para a produção.
Breves (PA), no Marajó, é outro distrito agrotecnológico do projeto Semear Digital. Ali a extração do açaí tem predominado na formação de renda de subsistência das famílias. Mas há dois anos, o cenário começou a mudar a partir da troca de conhecimentos com equipes de pesquisa sobre o manejo de mínimo impacto de açaizais nativos e o uso de abelhas nativas na polinização. Na comunidade de Jupatituba, os ribeirinhos tiveram acesso à plataforma web Infobee, com serviços e informações sobre meliponicultura, e ao aplicativo Manejatech-açaí, desenvolvidos pela Embrapa e parceiros. Os resultados preliminares já vem mostrando um incremento na produtividade, além de ganhos com manutenção da biodiversidade, bem-estar social e segurança alimentar.
Já na região Sul, em Vacaria, Rio Grande do Sul, o Semear Digital atua no desenvolvimento de pesquisas em robótica e inteligência artificial para ajudar os produtores de maçãs. A equipe trabalha num protótipo de robô que poderá ser usado para estimar com mais precisão a produção dos pomares e superar outros desafios do setor, como a falta de mão de obra para a colheita. Os produtores de pequenas frutas da região, como amora e framboesa, também são foco do projeto.
Além de testar e validar novas soluções digitais, a iniciativa trabalha para capacitar os produtores locais. Exemplo disso foi a oficina, realizada em agosto deste ano, em que agricultores aprenderam a montar e operar mini estações meteorológicas. Ao permitirem o acompanhamento direto no celular de dados de chuva, temperatura e umidade, essas estações ajudam no planejamento de colheitas e pulverizações, preparando as propriedades para eventos climáticos extremos.


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