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A mágica de uma artista francesa para tornar o vinho tão bonito quanto saboroso

A mágica de uma artista francesa para tornar o vinho tão bonito quanto saboroso

🕔23.set 2022

Impulsiva, arrojada, criativa. É como se ela não parasse quieta em lugar algum. Mas os traços deslizam com facilidade pelo borrão, abrindo visões fantásticas, contorcidas, vibrantes.  Essa é a artista francesa Juliette Régnier, que se multiplica para rotular garrafas de vinhos ou cervejas  ou simplesmente para completar uma nova coleção de quadros que serão expostos em uma galeria. De formação ampla, Juliette, fala da graduação com uma indiferença sutil de quem acumula títulos sem arrogância. Diz: “A minha formação na graduação e pôs graduação é em Antropologia e em Gestão da Comunicação. Conclui também, mais recentemente, um diploma de Administração de Estruturas de Economia Social e Solidária. Minha trajetória acadêmica é multidisciplinar e enriquecida por experiências pessoais e profissionais diversas, notadamente nas áreas de ação social, de políticas públicas e de engenharia de projetos”.

O Nordeste Rural encontrou Juliette em seu recanto com a família, em Grenoble, na França,  para entender os caminhos que a fizeram descobrir que uma garrafa de vinho pode ficar tão atraente quanto saborosa. Veja a seguir a nossa conversa:

Nordeste Rural – Qual o seu principal foco profissional e como descobriu a pintura?

Juliette Régnier – Eu era e ainda sou responsável por projetos no campo da Economia Social e Solidária. Na realidade, eu não descobri a pintura ela veio até mim uma bela manhã depois de uma separação afetiva. Quer sejamos místicos ou não, a história é a seguinte: Eu fiz tatuar corpos de mulheres em movimento nos meus braços, segundo a vontade do tatuador. Sem saber exatamente o significado da tatuagem que tinha nos meus braços, comecei a pintar no dia seguinte. Eu soube então que a tatuagem reproduzia uma pintura de PICASSO.

De um ponto de vista mais pragmático, minha avó materna pintava, minha mãe pintava, mas eu realmente não tive um aprendizado e transmissão da pintura, apenas observei. No entanto, sendo uma pessoa curiosa, o que me fez ganhar o apelido de “beija-flor”, experimentei primeiro a escultura e depois a pintura, mas esta última atividade nunca me deixou

Nordeste Rural – O que isso significou? Está realizada ou ainda busca novos caminhos criativos?

Juliette Régnier – Eu continuo a buscar novas formas de mostrar minha pintura. A forma clássica de exposição de meus quadros, mas também transformação e transposição de minhas pinturas para marcas de vinhos, cervejas ou outros produtos culturais na França ou no exterior

Nordeste Rural – Porque escolheu o vinho para demonstrar o seu talento e criar os rótulos?

Juliette Régnier – Uma pequena retificação. Não escolhi apenas o vinho, mas também a cerveja ou aguardentes. Uma resposta prosaica, mas verdadeira: eu aprecio enormemente, do ponto de vista gastronômico, o vinho e a cerveja. E acho que o design das garrafas é propício à criação. Mais uma vez, é também uma maneira de oferecer a possibilidade de ver a arte de outra forma. Tornar acessível também a pintura às pessoas que não vão ao museu, por exemplo, ou que não convivem com esses universos. Para mim é uma outra forma de popularização e um outro meio interessante. Nesse caso, fazemos apelo, ao mesmo tempo, aos nossos duplos sentidos: gustativos e visuais. Além disso, de um ponto de vista comercial, depois da crise sanitária da COVID 19, as pessoas estão comprando cada vez mais on-line. O design do rótulo influencia muito as vendas quando não se pode degustar o vinho.

Nordeste Rural – Em que se inspira para produzir as peças?

Juliette Régnier – Na realidade, eu não tenho uma fonte única de inspiração. Eu crio segundo meus desejos, meus sentimentos, seguindo minhas emoções. É, antes de tudo, um encontro com escritores como Romain Gary, Virginia Woolf, Claude Lévy Strauss e depois com os cineastas da Nova vaga e, por fim, com experiências de vida diversas, sobretudo na antropologia, na ação social, na política. Uma certa forma de compromisso que me levou a um estilo artístico ao mesmo tempo singular e alimentado de fatores diversos: “uma arte livre, do real, uma arte que explora o indizível e os territórios interiores”. Se eu tivesse que dar alguns nomes seria: Henri Michaux, Titus Carmel, Paul Rebeyrolle… Atualmente eu tenho um olhar mais atento na arte contemporânea, mas há muitos artistas.

Nordeste Rural – Como faz a ligação da sua criação e o produto que ela vai representar? Precisou provar os vinhos ou apenas trabalha pelas informações dos enólogos?

Juliette Régnier – A minha atividade principal é a criação de telas com vista a expor em galerias ou em espaços artísticos clássicos. Com relação aos rótulos para vinhos e cervejas, eu estou em processo de desenvolvimento deste serviço. Ainda não tenho uma distância necessária para falar de forma mais pertinente sobre o assunto. No entanto, para responder à pergunta, vou precisar falar com os viticultores independentes para simplesmente ouvir as histórias dos produtos, e estar atenta à forma como eles me descrevem o seu vinho de base. É a partir das narrativas que conseguirei imaginar e criar algo. Por exemplo, para uma vinícola para a qual quero trabalhar, trata-se da história de duas irmãs. Então eu procurei representá-las de diferentes formas, saindo um pouco da forma clássica pela qual eles costumavam fazer.

Nordeste Rural – Como classifica sua pintura?

Juliette Régnier – Nunca é fácil falar sobre seu próprio trabalho. Eu diria: caótico, comprometido, emocional, excêntrico.

Nordeste Rural – O que mais gosta de retratar quando está pintando?

Juliette Régnier – Eu não busco realmente retratar. É justamente nesse ponto que consiste a minha liberdade. A maioria das pessoas gostam de encontrar em um quadro o que eles veem na realidade.  É algo reconfortante. Avalia-se, por vezes, um artista pela sua capacidade de retratar o mundo que o rodeia, como o mais próximo possível do “verdadeiro, do real”. É um grande debate ainda atual no mundo da “arte moderna”. Na minha concepção, eu procuro, em suma e voluntariamente, modificar as aparências, a “borrar”, “rascunhar”, “esboçar”. Procuro sair dos preconceitos e das convenções.

Nordeste Rural – Além dos rótulos, vai trabalhar em quadros para uma exposição?

Juliette Régnier – É principalmente ao contrário…eu exponho primeiro, antes da criação dos rótulos. Para ser mais precisa, eu conduzo duas ou até três atividades de forma simultânea. Incluo também nesse meu trabalho, projetos de animações de oficina de pintura intuitiva para pessoas em situação de reinserção profissional. Assim como a redação de uma pequena coleção de prosas que ilustro

Nordeste Rural – Considera a arte uma forma finita de criatividade ou ela não tem limites para a imaginação?

Juliette Régnier – Eu imagino que você faz referência à famosa “falha de inspiração”… Eu acho que a arte é ilimitada, mas assim como os grandes artistas precisavam de musa, é preciso renovar constantemente. Eu não busco a todo custo a inspiração. Eu apoio minha escrita artística em minhas emoções.  Mesmo se essa forma de fazer não agrade a alguns que exprimem uma certa necessidade de linearidade na  criação. Para mim, o caminho da minha pintura anda de mãos dadas com a minha vida, mesmo se atualmente eu sinta uma necessidade de um sentido da origem e da trajetória nas minhas criações.

 

Para conhecer mais Juliette REGNIER, acesse: www.julietteregnierartistepeintre.com @juliette_regnierartiste

Email : julietteregnierartistepeintre@gmail.com

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