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Uma ferramenta nova vai ajudar a restaurar a mata do cerrado brasileiro

Uma ferramenta nova vai ajudar a restaurar a mata do cerrado brasileiro

🕔05.nov 2025

Cientistas da Embrapa Cerrados (DF), Universidades de Brasília (UnB) e Federal de Goiás (UFG) desenvolveram uma ferramenta para seleção de espécies nativas voltada à restauração ecológica, que também valoriza aspectos econômicos e socioculturais. Chamado Potencial de Restauração e Uso (PRU), o instrumento combina parâmetros ecológicos com os múltiplos usos das espécies. Testes realizados em uma área de mata ciliar no Cerrado mostraram que mais de 70% das 93 espécies avaliadas têm PRU médio ou alto — e que algumas, antes pouco consideradas pelo baixo potencial ecológico, podem ganhar espaço graças ao alto potencial de uso.

As matas ciliares são as faixas florestais dispostas ao longo dos cursos d’água. Além de serem corredores de dispersão de sementes, prestam diversos serviços ecossistêmicos, como ciclagem de nutrientes, regulação climática, controle de erosão, provisão de matérias-primas e produção de alimentos. Elas são protegidas pela legislação ambiental como Áreas de Preservação Permanente (APPs) e devem ser restauradas se forem suprimidas. De acordo com estudos, dos cerca de 3 milhões de hectares de déficit de restauração de APPs no Brasil, 23,6% estão no Cerrado.

A vegetação das matas ciliares se conecta a outras formações vegetais e apresenta grande heterogeneidade ambiental, dificultando a proposição de estratégias de restauração ecológica. Diferentes abordagens para restaurar áreas degradadas já foram testadas pela pesquisa científica, como condução da regeneração natural, semeadura direta e plantio de mudas de espécies nativas. Porém, todas elas são baseadas apenas em aspectos ecológicos, o que muitas vezes torna o processo de restauração mais complexo e, portanto, menos interessante para comunidades e produtores rurais.

“Utilizar espécies que oferecem alternativas econômicas pode tornar a restauração ecológica mais atraente, indo além do cumprimento das exigências legais”, diz Lidiamar Albuquerque, líder do estudo. Com base nessa premissa, a pesquisa associou critérios ecológicos importantes na seleção de espécies, agregados no Potencial Ecológico (PE), aos usos que cada espécie pode ter, calculados como Potencial de Uso (PU), buscando aumentar as chances de sucesso da restauração e torná-la economicamente mais atrativa. Assim, a soma do PE e do PU de uma espécie compõe o seu Potencial de Restauração.

O estudo foi conduzido em uma área de 8 hectares de mata ciliar preservada ao longo da margem direita do Rio Ponte Alta, no Gama (DF). O levantamento da flora identificou 93 espécies lenhosas de 41 famílias botânicas. A partir de pesquisa bibliográfica, elas foram caracterizadas com relação ao tipo de fruto; à capacidade de atração da fauna; à projeção da copa e à categoria sucessional. Esses critérios, fundamentais para a seleção de espécies, compõem o Potencial Ecológico (PE).

A atração da fauna foi avaliada quanto à capacidade da espécie de atrair animais frugívoros (que se alimentam principalmente de frutos) e os dispersores de sementes, com base em características dos frutos, como coloração e presença de recursos atrativos.

A projeção da copa foi determinada a partir da forma (grande, média ou pequena) e da densidade (densa, muito densa, esparsa ou rala) atribuída pela literatura. Segundo Albuquerque, essa característica pode ser decisiva na competição com plantas exóticas invasoras. “Assumimos que uma copa maior e mais densa pode ajudar a controlar espécies invasoras, aumentando as chances de sucesso da restauração ecológica”, explica.

A pesquisadora salienta que espécies com PU alto e médio podem agregar valor ao processo de restauração sem comprometer as características ecológicas vitais e a manutenção do ecossistema, além de melhorarem a aceitação por comunidades ou produtores rurais devido aos ganhos econômicos e benefícios alternativos. “Outra vantagem é o fato de que essas espécies podem oferecer aos pequenos produtores um seguro contra mercados futuros incertos”, finaliza.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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