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Uma descoberta importante para a vegetação dos Campos Rupestres

🕔03.abr 2025

Os Campos Rupestres são um dos ecossistemas mais biodiversos e ameaçados do Brasil, abrigando espécies altamente adaptadas a condições extremas. Entre elas, as espécies do gênero Vellozia se destacam por sua resistência à seca e solos pobres, tornando-as alvos de estudos moleculares para a compreensão dessas características. Esse conhecimento pode levar a inovações biotecnológicas para adaptação de culturas agrícolas aos impactos das mudanças climáticas.

Desde a década de 80, pesquisadores tentam determinar o número básico de cromossomos das espécies de Vellozia, mas os resultados sempre foram controversos. Alguns estudos apontavam nove, oito e até sete pares cromossômicos, dependendo da espécie. Parte dessa confusão se deve ao fato de que alguns cromossomos eram considerados satélites – pequenas estruturas ligadas aos cromossomos principais, que poderiam ser interpretadas como partes acessórias e não como verdadeiros cromossomos.

Pesquisadores do Centro de Genômica Aplicada às Mudanças Climáticas (GCCRC) – uma parceria entre a Embrapa, a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) – determinaram, com precisão inédita, o número cromossômico das icônicas velózias dos Campos Rupestres – vegetações em áreas rochosas que ocorrem no Cerrado Mata Atlântica e Caatinga – solucionando uma incerteza genética que perdurava há décadas. O estudo foi publicado na revista Brazilian Journal of Botany.

Determinar o número exato de cromossomos de uma planta pode parecer simples, mas no caso das velózias, há um desafio técnico importante: é extremamente difícil obter células em metáfase, a fase da divisão celular em que os cromossomos estão mais visíveis em microscópios e prontos para serem contados. As velózias apresentam crescimento extremamente lento, o que limita a obtenção dessas células.

Para superar esse obstáculo, os pesquisadores se valeram de uma estratégia inovadora: por meio da aplicação de hormônios em sementes das espécies, geraram uma estrutura denominada calo, que apresenta uma taxa mais alta de divisão celular. Isso permitiu a obtenção de um número muito maior de células em metáfase, facilitando a contagem e confirmando os achados sobre o número de cromossomos do gênero.

“A resolução desse mistério cromossômico não é apenas uma curiosidade acadêmica, ela tem implicações importantes para a evolução, conservação e genética das espécies de Vellozia”, afirma Isabel Gerhardt, pesquisadora principal do GCCRC e da Embrapa Agricultura Digital, autora do trabalho. “O número de cromossomos pode indicar eventos como poliploidia (duplicação do genoma), fusões ou quebras cromossômicas que influenciaram a adaptação dessas plantas ao ambiente extremo dos campos rupestres”, complementa a autora.

Os Campos Rupestres estão localizados em afloramentos rochosos nas regiões central e leste do Brasil. Apesar do ambiente hostil para o desenvolvimento de plantas, abriga quase 15% da diversidade vegetal brasileira, concentrando muitas espécies de ocorrência única nessa região. Além da necessidade de conservação, esse ecossistema apresenta potencial científico ainda pouco explorado.

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