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O “Sisteminha” é uma tecnologia barata que ajuda o produtor rural ter mais renda e alimento

🕔10.jun 2020

sisteminha embrapaA tecnologia fácil e barata já está beneficiando mais de 4,5 mil famílias de 12 estados, além de estar operando com sucesso em sete países africanos. Conhecido como “Sisteminha”, o Sistema Integrado de Produção de Alimentos é um pacote tecnológico de baixo custo capaz de gerar alimentos para o consumo próprio de pequenos produtores rurais a ainda um excedente para incrementar a renda. Seus impactos para a sociedade o colocaram entre os destaques do mais recente Balanço Social da Embrapa.

Lançado em 2011  e fruto de parceria entre Embrapa, Universidade Federal de Uberlândia (UFU) com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (Fapemig), o Sisteminha é adaptado para pequenos espaços, até um hectare, e consiste em um tanque para a criação de peixes que pode ser associado a outros 14 módulos produtivos como, por exemplo, minhocas, hortaliças e ruminantes, de acordo as condições locais. Ele foi dimensionado para atender as necessidades nutricionais de uma família de quatro pessoas, de acordo com as recomendações da Organização Mundial de Saúde (OMS).

Hoje, a tecnologia opera com sucesso nos estados do Piauí, Maranhão, Pernambuco, Bahia, Rio Grande do Norte, Ceará, Pará, Acre, Goiás, Minas Gerais, São Paulo e Paraná. No continente africano, é empregada em Gana, Uganda, Etiópia, Camarões, Tanzânia, Angola e Moçambique.

Nos locais onde foi adotado, famílias que antes não tinham renda fixa passaram a ter mais comida na mesa e a ganhar, em média, um salário mínimo por mês com a venda dos produtos em feiras livres. Dois exemplos em comunidades pobres que adotaram o Sisteminha estão no sertão nordestino.

No município de Inajá, a 396 quilômetros a sudoeste do Recife, 20 famílias carentes de cinco comunidades trabalham em 13 unidades do Sistema, melhorando a alimentação e com uma renda diária que vem da comercialização do excedente da produção e pelo que deixaram de gastar. O assentamento indígena Kambiwá Caraibeirinhas é o destaque. Dez mulheres, de duas famílias, operam cinco módulos e ganham em média 1,5 salário mínimo, cada uma.

Além da produção de peixes, elas cultivam alface, coentro, berinjela, couve, rúcula, salsa, abóbora, feijão, milho, melancia, acerola, coco, limão, laranja, banana, tomate, mamão, maracujá, abacaxi, cebolinha, maxixe, morango e caju. A coordenadora da Associação ProVida, que incentivou a adoção do Sisteminha em Inajá, Cláudia Leal, projeta a implantação de unidades da tecnologia nos municípios de Floresta, Salgueiro e Manarí, todos no sertão pernambucano. Manarí, no início dos anos 2000, foi considerado o município mais pobre do Brasil por ter um baixíssimo Índice de Desenvolvimento Humano (IDH).

No distrito de Maruá, a 50 quilômetros do município de Juazeiro, no sertão da Bahia, a força do associativismo também está mudando a vida de uma comunidade inteira. Vinte famílias, organizadas em permanente mutirão pela Agência Missionária para Evangelização do Sertão, organização não-governamental (ONG) com sede no Espírito Santo, operam uma unidade com peixes, frutas, milho, feijão e hortaliças. A maioria tem atividades paralelas, mas mantém no Sisteminha o reforço alimentar. Cada família trabalha em uma área de 600 metros quadrados. A área total é de 30 mil metros quadrados.

O Sisteminha chegou também ao ensino superior. Na Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf), em Juazeiro, a unidade implantada em uma área de 1,3 mil metros quadrados, no Espaço Plural, vem capacitando comunidades rurais e orientando estudantes nos trabalhos de conclusão de curso (TCC) nas áreas de agronomia, veterinária e zootecnia. A implantação do módulo foi em agosto de 2018, com piscicultura, criação de galinhas de postura, frangos de corte, codornas, porquinhos da índia e minhocultura, que dividem espaço com milho, tomate cereja, abóbora e macaxeira.

Um dos idealizadores da tecnologia, o pesquisador Luiz Carlos Guilherme da Embrapa Meio Norte (PI), considera que a maior diferença entre o Sisteminha e os outros modelos de produção familiar é a prática do escalonamento da produção e o fato de não haver comprometimento da produção com o mercado. O cientista explica que o escalonamento propicia o consumo sem interrupção o ano todo e a diversidade de produtos garante a sustentabilidade.

Podendo ser instalado numa área de 100 a 1.500 metros quadrados, o sistema é sustentável e modulado. A tecnologia consiste em um tanque de piscicultura, que é o coração do sistema, que pode ser associado a 14 outros módulos, todos passíveis de serem construídos artesanalmente com materiais locais. As combinações dos módulos são variadas e também atendem às necessidades e realidade de cada comunidade.

O tanque de piscicultura tem capacidade para dez mil litros e funciona com um sistema de recirculação de água. A produção é de 35 quilos de peixes a cada 90 dias, em quatro ciclos por ano. Os peixes podem pesar até 300 gramas ao final de cada ciclo. “Todo o sistema reutiliza a água do tanque de piscicultura, o que reduz os custos de produção e aumenta a oferta de alimentos”, explica Guilherme.

O pesquisador explica que o Sisteminha foi projetado para que os investimentos fossem os menores possíveis e se pagassem em um único ciclo produtivo. Foi também valorizada a criatividade dos membros da família nos arranjos o que, segundo ele, é fundamental para que os módulos sejam adequados com sucesso.

 

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