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Experiência do agricultor no campo e conhecimentos científicos ajudam a conservar sementes no Semiárido brasileiro

0 Comments 🕔15.out 2026

A iniciativa, que faz parte do Programa InovaSocial, atua em sete territórios e conta com investimento superior a R$ 3 milhões até 2027 para fortalecer a conservação e o uso das sementes crioulas. A expectativa é beneficiar cerca de 2 mil famílias, incluindo agricultores familiares, assentados, povos indígenas e comunidades quilombolas. Quatro ensaios participativos instalados em 2026 no âmbito do Projeto Agrobiodiversidade do Semiárido (AgrobioSA) avaliam variedades crioulas de milho em Alagoas, Bahia, Paraíba e Piauí.

Coordenado pela Embrapa Alimentos e Territórios (AL), em parceria com a Articulação Semiárido Brasileiro (ASA) e com apoio do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), o AgrobioSA reúne pesquisa científica, inovação social e conhecimento tradicional. Pelo menos 20 variedades fazem parte dos ensaios e, até o momento, cerca de 100 materiais já foram testados quanto à presença de transgênicos. Na fase anterior do projeto, 34% das amostras analisadas apresentaram proteínas geneticamente modificadas.

No Semiárido, agricultoras e agricultores guardam, selecionam e multiplicam sementes de uma safra para outra. São guardiões e guardiãs de sementes crioulas, variedades locais adaptadas ao ambiente, aos sistemas produtivos e à cultura de cada território. Além de  conservar grãos, essas famílias mantêm um patrimônio genético e cultural ligado à alimentação, à autonomia produtiva e à história das comunidades.

Uma das frentes do projeto é fortalecer casas e bancos comunitários de sementes (CBCSs), espaços organizados pelas próprias comunidades para armazenar, trocar e multiplicar variedades locais. Ao todo, as ações diretas de monitoramento e fortalecimento previstas pelo AgrobioSA envolverão 122 CBCSs.

Em Alagoas, a Rede Sementes da Resistência reúne mais de 60 bancos comunitários. Experiências de Estrela de Alagoas, Igaci, Craíbas, Palmeira dos Índios, Delmiro Gouveia, Inhapi e Poço das Trincheiras, entre outros municípios, participam das articulações.

Também em 2026, foram implantados viveiros de mudas em Escolas Família Agrícola (EFAs) na Bahia e no Piauí e em unidades com sistema de Agrocaatinga. Em Delmiro Gouveia (AL), o campo de multiplicação de sementes crioulas foi instalado em agosto e está sob monitoramento, com foco na renovação dos estoques comunitários.

Outro eixo em construção é a Rede de Proteção do Milho Crioulo. As equipes e redes de sementes dos territórios discutem protocolos para monitorar a contaminação por transgênicos; reintroduzir nos territórios materiais de milho coletados pela Embrapa e conservados em bancos ativos de germoplasma (BAGs); e estruturar unidades territoriais de conservação.

A contaminação das sementes crioulas por transgênicos é apontada pelo coordenador do projeto, Fernando Curado, como um dos maiores riscos atuais à conservação desses materiais.

Para Curado, a pesquisa contribui com informações técnicas que qualificam práticas construídas pelas famílias ao longo de gerações. Caracterizar as variedades e acompanhar seu ciclo nas condições locais ajuda a conhecer melhor os materiais e amplia a autonomia das famílias na conservação das sementes.

A troca entre conhecimento científico e saberes construídos no território também é valorizada pelos próprios guardiões. Para Sebastião Rodrigues Damasceno, guardião de sementes de Santana do Ipanema (AL), participar das ações promovidas pelo projeto representa uma oportunidade de aprendizado para a comunidade. “É uma aula universitária de fortalecimento, conhecimento e preparação para as famílias da agricultura familiar do Alto e Médio Sertão de Alagoas”, afirma.

Ao aproximar ciência, organizações sociais e conhecimentos tradicionais, o AgrobioSA aposta em uma conservação dinâmica: sementes que permanecem nas mãos das famílias, circulam entre comunidades, voltam à terra e continuam sendo selecionadas a cada safra. É nesse ciclo que os guardiões ajudam a manter não apenas variedades agrícolas, mas também a autonomia, a memória e mais possibilidades de futuro para o Semiárido.

 

 

 

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