Análise de fezes bovina pode indicar a capacidade do animal converter pasto em carne
A composição da flora ruminal — conjunto de microrganismos que faz parte do sistema digestivo do gado — desempenha papel importante na saúde, no desenvolvimento e, principalmente, na eficiência alimentar dos bovinos da raça Nelore. Um estudo revelou que a variação da flora pode contribuir para uma pecuária mais produtiva ao determinar quais animais são capazes de transformar alimento em carne de forma mais eficiente, reduzindo custos de produção e o impacto ambiental. Ou seja, essa capacidade do boi não é apenas genética, mas também pode ser explicada pelos microrganismos presentes no rúmen e no intestino.
Ao converter pasto em carne de forma eficiente, o bovino tem ganho de peso melhor e estará pronto para o abate em um período menor. Como consequência, além de reduzir as emissões de metano, o produtor diminuirá os custos com a engorda. Atualmente, a alimentação pode representar o maior gasto no sistema produtivo.
O trabalho “Microbiabilidade da eficiência alimentar, reatividade e qualidade da carne em bovinos da raça Nelore” realizado por pesquisadores da Embrapa, foi iniciado em 2021 em parceria com a Associação Brasileira dos Criadores de Zebu (ABCZ). Foram acompanhados 100 tourinhos em diferentes etapas: no final do período seco, no final das águas e ao término do confinamento.
O DNA das fezes foi analisado para identificar a variação na composição da flora intestinal. Um dos resultados indicou maior diversidade de microrganismos durante a época seca, quando o gado consome pastagens mais fibrosas. Segundo a pesquisadora Luciana Regitano, que coordenou o estudo, essa diferença é uma adaptação para melhorar a capacidade de digestão quando a pastagem tem menor qualidade. “As fibras favorecem o desenvolvimento de alguns microrganismos, que, por sua vez, ajudam a quebrar essas fibras para produzir os ácidos graxos, que são a fonte de energia para os bovinos”, explica.
Ao analisar as amostras de DNA das fezes dos animais nos diferentes períodos, foram identificados 62 microrganismos relacionados ao Consumo Alimentar Residual (CAR), que mede a eficiência independentemente do tamanho do bovino, e que foi medido durante o confinamento.
A maior parte dos microrganismos associados ao CAR foi encontrado nos animais ainda na primeira fase de recria à pasto. Sendo assim, as bactérias presentes em bezerros recém-desmamados ajudam a prever como será o desempenho deles meses depois, já no confinamento.
De acordo com a pesquisadora, esses microrganismos têm potencial de permitir a predição do desempenho futuro do animal enquanto ainda está sendo recriado a pasto. Essa constatação é relevante, pois parte da composição dessa flora é influenciada pela própria genética do boi, o que significa que a eficiência alimentar pode ser aprimorada por meio de seleção genômica em programas de melhoramento.
A identificação de tourinhos geneticamente superiores e com flora intestinal eficiente possibilita a redução de custos na engorda, já que a alimentação representa grande parte dos gastos de um confinamento. Também representa a diminuição do impacto ambiental da atividade, abrindo caminho para a descarbonização, com o abate de animais mais jovens e produtivos.
Regitano explica que, para o futuro, os dados coletados podem ser úteis para o desenvolvimento, por exemplo, de aditivos pré e probióticos para melhorar a eficiência da conversão de alimentos em produtos de origem animal.
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