O Brasil perde bilhões com as alterações climáticas
Cada aumento de 0,1 °C na temperatura média global acrescenta R$ 5,6 bilhões aos prejuízos econômicos causados por desastres naturais no Brasil. O dado integra o Guia da Indústria para Adaptação à Mudança do Clima, documento da Confederação Nacional da Indústria (CNI). O guia mapeia os impactos da crise climática sobre as cadeias produtivas e apresenta um plano de ação para mitigar os riscos físicos e de transição que ameaçam a competitividade do setor econômico nacional.
Para Roberto Muniz, diretor de Relações Institucionais da CNI, a adaptação climática precisa ser incorporada ao planejamento estratégico das empresas, especialmente diante do avanço dos eventos extremos e das novas exigências de uma economia de baixo carbono. “Esta é uma iniciativa estratégica para fortalecer a resiliência da indústria e da economia brasileiras diante dos impactos da mudança do clima e das exigências crescentes de uma economia de baixo carbono. O guia identifica riscos físicos, como secas, inundações, incêndios florestais e elevação do nível do mar, além de riscos de transição ligados a pressões regulatórias, mudanças tecnológicas e novos comportamentos do consumidor”, afirma Muniz.
O avanço dos eventos extremos já aparece nas estatísticas nacionais. Entre 1991 e 2023, o Brasil registrou mais de 64 mil desastres no Brasil, segundo dados do Sistema Integrado de Informações sobre Desastres (S2iD). Só entre 2020 e 2023, o país registrou acima de 16 mil ocorrências, uma média próxima de 4 mil registros por ano. As secas (50%) responderam por metade dos casos, enquanto inundações, enxurradas e enchentes representaram 27% e as tempestades, 19%.
Em razão desses riscos, o documento concentra recomendações em três subsetores com base na exposição geográfica e na dependência de recursos naturais. Veja abaixo:
Óleo e Gás
O setor de óleo e gás concentra ativos de alto valor em áreas costeiras e marítimas, como plataformas offshore, refinarias, dutos e terminais portuários. Segundo o guia, tempestades, ressacas e a elevação do nível do mar podem comprometer estruturas, interromper operações e elevar custos de manutenção, seguros e adaptação.
Entre as medidas recomendadas estão o reforço da infraestrutura, a atualização de critérios de engenharia para eventos extremos, o reúso e dessalinização de água nas operações marítimas e de refino e a diversificação dos investimentos em fontes renováveis, como a energia eólica offshore.
Alimentos
A cadeia de alimentos é uma das mais sensíveis à mudança do clima por depender diretamente do regime de chuvas, da disponibilidade de água, da temperatura e da estabilidade da produção agropecuária. Secas prolongadas, inundações, ondas de calor e geadas fora de época podem reduzir safras, encarecer insumos, comprometer o transporte de produtos perecíveis e afetar tanto o abastecimento interno quanto as exportações.
Entre as recomendações do guia estão o estímulo à agricultura regenerativa, à conservação do solo e da água e ao uso de tecnologias capazes de aumentar a previsibilidade da produção. Ferramentas de meteorologia de precisão e agricultura digital podem apoiar decisões sobre plantio, colheita, irrigação e logística, reduzindo perdas diante de eventos extremos.
O documento também aponta a necessidade de modernizar a infraestrutura de armazenagem e distribuição, com silos, armazéns e centros logísticos mais preparados para variações de temperatura e interrupções no transporte. Na pecuária, medidas como sombreamento, manejo do estresse térmico e garantia de acesso à água limpa ajudam a preservar a produtividade em um cenário climático mais instável.
Têxtil
No setor têxtil e de confecção, os riscos climáticos aparecem em diferentes etapas da cadeia produtiva. A produção de fibras naturais, como o algodão, depende de água e de condições climáticas favoráveis, enquanto as fases de beneficiamento, tingimento, lavagem e acabamento consomem volumes expressivos de recursos hídricos e energia. Em regiões sujeitas à escassez de água, eventos extremos podem elevar custos, comprometer o fornecimento de insumos e afetar a continuidade das operações industriais.
O guia recomenda a adoção de tecnologias de reúso de água e tratamento de efluentes, a modernização de máquinas para maior eficiência energética e o uso de fontes renováveis, como solar e biomassa, nos processos produtivos. A digitalização da produção também aparece como estratégia para monitorar, em tempo real, o uso de recursos e antecipar riscos operacionais.
Outra frente apontada é a economia circular. A reutilização de resíduos têxteis, a reciclagem de peças pós-consumo, a rastreabilidade de fibras e a certificação ambiental de fornecedores podem reduzir a dependência de novas matérias-primas e fortalecer a competitividade do setor diante de consumidores e mercados cada vez mais exigentes.
Agenda de regulação
Além de mapear as ameaças físicas às fábricas, o guia detalha os riscos de transição regulatória e comercial que reconfiguram o ambiente de negócios no país. O principal marco dessa mudança é a consolidação do Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (SBCE), instituído pela Lei nº 15.042/25.
A legislação estabelece limiares para a entrada de instalações produtivas no mercado regulado de carbono. Na prática, as indústrias que não cumprirem com as metas de descarbonização a serem estabelecidas pelo governo passarão a ter custos financeiros adicionais para comprar cotas de compensação, enquanto as empresas que atingirem suas obrigações de emissões poderão comercializar os créditos excedentes. O guia da CNI orienta o setor produtivo a antecipar o inventário de emissões de Gases de Efeito Estufa para que possam traçar estratégias de mitigação e adaptação e se antecipar a novas realidades regulatórias e de mercado.
A alta nos custos de insumos é uma das principais preocupações dos produtores rurais brasileiros para a próxima safra 0


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