Produção brasileira de amendoim em alerta para prevenir o ataque da doença do carvão
O Brasil é o segundo maior produtor e exportador de amendoim da América Latina, com 466 mil toneladas, ficando atrás apenas da Argentina, que produz em torno de 1 milhão de toneladas anualmente. Aproximadamente 80% da produção Argentina é destinada à exportação, enquanto no Brasil esse percentual gira em torno de 30%. O estado de São Paulo concentra mais de 90% da produção nacional de amendoim.
Com o objetivo de manter o Brasil livre dessa doença, a Embrapa iniciou um estudo para mapear as áreas de produção de amendoim no País, verificando a possível presença do patógeno, o fungo Thecaphora frezii. O levantamento está sendo realizando com os produtores, com apoio de entidades do setor, para determinar se há presença do patógeno nas lavouras comerciais e, caso constatado, definir medidas para evitar sua dispersão.
“A intenção é amostrar as áreas de produção de amendoim do Brasil, com ênfase no estado de São Paulo, visando detectar ou não o agente causal, e com base nessas informações fornecer subsídios necessários para que as autoridades competentes possam agir”, explica o pesquisador da Embrapa Dartanhã Soares, que coordena a iniciativa.
Conhecida como carvão do amendoim, a doença que ataca as vagens da oleaginosa, produzindo uma massa negra de esporos no lugar dos grãos, preocupa os produtores brasileiros. Embora ainda não tenha sido detectado em lavouras comerciais no País, o carvão do amendoim tem causado sérios prejuízos na Argentina, que vão desde o aumento dos custos de produção e queda na produtividade, à restrição na importação do produto por alguns países.
Um dos possíveis desdobramentos do estudo, caso o patógeno não seja detectado, é declarar as áreas de produção da oleagenosa no Brasil como livres da doença, o que impactaria diretamente a cadeia de exportação do amendoim brasileiro. Soares conta que, com a recente divulgação das elevadas perdas de produção ocasionadas pelo carvão do amendoim na Argentina, alguns países produtores e exportadores, como a Austrália e os Estados Unidos, emitiram alertas impondo barreiras fitossanitárias ao amendoim argentino, brasileiro, e de outros países da América Latina. “Embora não existam evidências de que esse patógeno esteja ocorrendo em lavouras comerciais de amendoim do Brasil, devido à falta de estudos sistemáticos que comprovem essa premissa, as autoridades governamentais não possuem argumentos para solicitar a exclusão do País de tais restrições legislativas”, declara o cientista.
Os embargos fitossanitários foram impostos com base em artigo publicado na revista Plant Disease em fevereiro do ano passado. O pesquisador avalia que o impacto desses embargos no momento não é tão sério, pois os principais consumidores do amendoim brasileiro são a Ásia e Europa, mercados em que o principal fator analisado é a presença de aflatoxinas. “Entretanto, em razão dessas restrições, é possível que outros países façam o mesmo, seguindo um efeito cascata. É o caso da China, país em que foi sugerido que sejam adotadas as mesmas medidas impostas pelos Estados Unidos e Austrália. Até que ponto isso realmente irá impactar as exportações brasileiras ainda é uma incógnita. No entanto, a imposição de embargos legislativos, em decorrência de barreiras sanitárias para exportação, é sempre um grande entrave, vide a questão, por exemplo, da febre aftosa”, alerta Soares.
O mapeamento foi iniciado este ano e tem previsão de conclusão em fevereiro de 2021. A prioridade serão as áreas de produção que utilizam sementes importadas da Argentina. “Caso o produtor ou técnico responsável suspeite da ocorrência do patógeno em sua área de produção, ele pode preencher o nosso formulário com o maior detalhamento possível e enviar as amostras coletadas para o endereço que consta no folder”, orienta Soares. As análises das amostras de solo, de vagens e de grãos para beneficiamento serão realizadas sem custo para o produtor.

