Pesquisadores criam dois métodos para melhorar a qualidade genética do maracujá
Os dois métodos, criados pelos cientistas da Embrapa, envolvem características de interesse do mercado e dos consumidores, como a polpa, que é fundamental para a fabricação de suco, e a cor da fruta, que, além de representar a quantidade de vitaminas e outras substâncias de importância para a saúde humana, é também um diferencial buscado nas gôndolas dos supermercados.
Os cientistas da Embrapa Mandioca e Fruticultura (BA) desenvolveram os dois métodos inovadores para potencializar a caracterização de recursos genéticos de maracujá. Um deles utiliza modelos matemáticos para predizer a quantidade de polpa da fruta, e o outro se baseia em ferramentas computacionais, como softwares e aplicativos, para definir a cor de vários caracteres da planta, como casca e polpa. A etapa de caracterização é fundamental para aprimorar os programas de melhoramento genético e torná-los cada vez mais próximos das demandas do setor produtivo e da sociedade.
Os estudos foram realizados com recursos genéticos disponíveis no Banco Ativo de Germoplasma (BAG) — estrutura que armazena o material genético de uma espécie — de Maracujazeiro e fazem parte de uma estratégia da Embrapa de investir em metodologias alternativas para obter maior precisão e agilidade na tomada dos dados. Os resultados foram publicados em um artigo na Scientia Horticulturae — revista internacional que divulga pesquisas relacionadas a hortaliças, frutas, fungos comestíveis e plantas ornamentais.
O peso da polpa sem sementes é uma das características de grande importância na caracterização de Passiflora (gênero ao qual pertence o maracujá), já que a polpa representa o principal produto comercializado pelas indústrias de processamento da fruta. Como se relaciona diretamente com o rendimento do suco, é fundamental, portanto, que essa característica seja perfeitamente quantificada. “Às vezes, um fruto extremamente bonito tem pouca polpa. Por isso, é muito importante para o programa de melhoramento saber se determinado genótipo tem alto rendimento de suco”, afirma o pesquisador Onildo Nunes, principal autor do artigo.
Com o objetivo de acelerar o processo e aumentar a quantidade de frutos analisados, Nunes e sua equipe de bolsistas criaram um modelo matemático de forma a facilitar o processo e antecipar a seleção de genótipos superiores. No método convencional, a avaliação da quantidade de polpa inclui a retirada da mucilagem (polpa mais sementes), seguida de coagem e posterior pesagem da polpa sem sementes. Essa metodologia de avaliação é complexa, demanda muito tempo, além de sofrer muita influência do operador, podendo levar a erros de mensuração. O uso do novo modelo de predição aumenta a precisão (cerca de 95% de acurácia) e a quantidade de frutos avaliados por dia, de 20 para 150.
Ele anuncia ainda que a equipe trabalha na elaboração de um protótipo que vai acelerar o processo de caracterização. “A nossa ideia com esse protótipo, que deve estar pronto no próximo ano, é ousar ainda mais. Vamos colocar o fruto em um equipamento e, sem abri-lo, ter a estimativa de todos os caracteres que são avaliados nos genótipos do BAG como no melhoramento genético do maracujazeiro. A intenção é reunir todas as informações que constam nesse artigo e incorporá-las ao protótipo para que possamos utilizá-lo numa escala mais rápida dentro do processo de caracterização e acelerar os programas de melhoramento de maracujá”, afirma Nunes.
O outro item do artigo se refere à determinação exata da cor das diversas partes da planta. Os caracteres relacionados à coloração são os mais vulneráveis, sujeitos a erros. As classes da lista de descritores de Passiflora não abrangem todas as variações existentes e a intensidade da cor. Outro problema é que esse tipo de avaliação é muito influenciado pela percepção de cada avaliador, mesmo se considerar as paletas de cores. Por isso, alguns programas e aplicativos de imagens (já existentes no mercado) vêm sendo utilizados por programas de melhoramento, mas essa foi a primeira vez em que foram empregados em um programa com a cultura do maracujazeiro para determinação da cor nos diferentes órgãos da planta no processo de fenotipagem de acessos.
O maracujazeiro pertence ao gênero Passiflora L., considerado o maior da família Passifloraceae, com cerca de 500 espécies, e apresenta ampla diversidade genética para caracteres morfológicos de flores, ramos, folhas e frutos. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a produção aproximada no País é de 683 mil toneladas em 44 mil hectares, fazendo do Brasil o maior produtor mundial e consumidor de maracujá fresco e processado. Do ponto de vista comercial, as duas espécies mais importantes são a Passiflora edulis Sims (maracujazeiro amarelo ou azedo) e a P. edulis Sims f. edulis (maracujazeiro roxo puro).
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