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Dificuldades e cuidados que o setor madeireiro do Brasil deve ter para enfrentar os próximos anos

0 Comments 🕔22.out 2026

Os especialistas do setor madeireiro, no Brasil,  apontam duas frentes prioritárias para a recuperação da indústria com perspectiva para 2027. A primeira é avançar nas negociações comerciais com os Estados Unidos e a segunda é enfrentar os custos internos que dificultam a competição por mercados. A expectativa faz um alerta: os entraves estruturais exigem reformas e investimentos cujos resultados ultrapassam o calendário eleitoral, brasileiro.

A discussão ocorre em um cenário de retração das exportações. Segundo levantamento apresentado pela WoodFlow, com informações da STCP, o valor exportado pelos oito grupos de produtos acompanhados nessa análise recuou mais de US$ 224 milhões entre janeiro e setembro de 2026, em comparação com o mesmo período de 2025. Em volume, as exportações de molduras de pinus caíram 46%, enquanto as de portas de madeira diminuíram 18%.

Para Gustavo Milazzo, CEO da WoodFlow, os números evidenciam a dificuldade de compensar a perda de negócios com os compradores americanos. A busca por destinos alternativos também esbarra no preço do produto brasileiro. “A gente está caro em quase tudo”, afirma, ao relatar as tentativas de ampliar as vendas para outros mercados.

Mário Wanzuita, diretor da Holtz Engenharia e Negócios, chama a atenção para os efeitos do câmbio. Em sua avaliação, uma eventual entrada maior de capital estrangeiro poderia valorizar o real e pressionar a receita dos exportadores, enquanto a manutenção das barreiras comerciais continuaria dificultando as vendas. Por isso, recomenda cautela com a expectativa de uma recuperação rápida após as eleições.

“Os problemas brasileiros são muito difíceis de solução. São problemas que têm que passar pelo Congresso, por reformas”, afirma o diretor da Holtz.

Dentro do país, a evolução dos custos ajuda a dimensionar o desafio. Em uma amostra acompanhada pela consultoria, o custo médio de colheita e carregamento florestal passou de R$ 41 para R$ 75 por metro cúbico em dez anos, uma alta de aproximadamente 83%. O cálculo considera custos operacionais e depreciação de máquinas e equipamentos, com variações conforme as condições do terreno.

Mauro Murara Jr., diretor executivo da Associação Catarinense de Empresas Florestais (ACR),acrescenta que atrasos nas inspeções e procedimentos de liberação das cargas podem provocar perda de janelas de embarque e despesas adicionais nos portos. Segundo ele, uma movimentação de contêiner pode custar entre R$ 1 mil e R$ 1,2 mil nas situações relatadas. “O lucro de um contêiner às vezes vai só nessa movimentação”, afirma. Entre as possibilidades de melhoria, o dirigente defende ampliar a discussão sobre inspeções na origem, antes da chegada da carga ao terminal.

A retração industrial também produz efeitos sobre a demanda por matéria-prima. Wanzuita observa que a menor procura por toras de pinus de maiores diâmetros pode transmitir uma falsa sensação de oferta abundante. Na avaliação do especialista, esse movimento está relacionado às dificuldades atuais da indústria e precisa ser analisado junto às perspectivas de abastecimento dos próximos anos.

Como a produção de pinus pode exigir ciclos de 15 anos ou mais, conforme o manejo e a finalidade da madeira, decisões de plantio e investimento precisam considerar um horizonte mais longo. O desafio é conciliar a remuneração do produtor florestal com um custo de matéria-prima que preserve a competitividade das empresas responsáveis pelo processamento.

Os especialistas apontam o aumento da produtividade como um dos caminhos para esse equilíbrio. Melhorias na nutrição das florestas, no manejo e nas práticas de cultivo podem ampliar a produção nas áreas já plantadas, especialmente em regiões onde o preço da terra limita a expansão.

Para atravessar o período de instabilidade, Murara recomenda aos industriais atenção ao fluxo de caixa e negociação próxima com os clientes, incluindo revisão de preços, prazos e contratos. Aos produtores florestais, destaca a importância do manejo, do monitoramento de pragas e da organização ambiental das propriedades.

Milazzo reforça que transformar o potencial produtivo brasileiro em vendas depende de avanços ao longo de toda a cadeia. “É realmente bastante difícil a gente ser competitivo no mundo com uma situação dessa. Isso não é algo que vai mudar com o próximo presidente, é algo que a gente vai enfrentar durante um bom tempo”, afirma.

 

 

 

 

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