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Artigo – O búfalo doméstico (Bubalus bubalis): esse animal existe sim!

🕔14.out 2019

Por:

Ricardo Pessoa – Professor da UFRPE

 

Os búfalos desempenham importante função econômica e social no planeta. O leite de búfala é o segundo leite mais produzido no mundo e a carne de búfalo é sensorialmente semelhante à carne bovina. Os produtos bubalinos são, por sua composição nutricional, dotados de características diferenciadas que devem ser exploradas em consonância com o potencial da espécie e, particularmente no Brasil, país que possui o maior rebanho bubalino do Ocidente, esse potencial não tem sido racionalmente apresentado à população. Para os que labutam na bubalinocultura não restam dúvidas de que o búfalo doméstico (Bubalus bubalis) é um animal de especial capacidade produtiva. Embora muitos brasileiros desconheçam a espécie bubalina vamos falar um pouco sobre ela hoje!

Nessa nossa conversa gostaria de destacar a pessoa do Professor Ross Cockrill, médico veterinário que há algumas décadas já declarava o seu fascínio pela espécie bubalina e dedicou muito de sua vida ao estudo dos búfalos. O Dr. Cockrill, também conhecido pela alcunha de “Buffalo Bill”, foi o primeiro autor a orientar os meus estudos sobre a espécie bubalina. De cara percebi a sua versatilidade e capacidade observativa caracterizada pela diversidade de caminhos por onde trilhou: foi à 2ª guerra como navegador de vôo (antes disso ingressou no Ministério da Agricultura como oficial de campo veterinário), era autor, dramaturgo, contador de histórias talentoso e especialista em italiano, comida e vinho, além de ser precursor e especialista em acupuntura para animais. Foi um exemplo de servidor público altruísta trabalhando por cerca de 20 anos na Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação entre as comunidades rurais dos países em desenvolvimento. O trabalho na FAO iniciou em 1953 e durou cerca de 20 anos viajando pelo mundo, particularmente na Ásia, onde conheceu o búfalo: ele estava dirigindo por uma estrada rural quando, segundo ele, subitamente se levantou diante dele “este enorme animal com chifres”; ele evitou atingi-lo, mas a partir daquele encontro inesperado veio um intenso estudo e carinho pelo búfalo. Cockrill acreditava que o Bubalus bubalis era o ANIMAL AGRÍCOLA MAIS IMPORTANTE DO MUNDO. Seu texto de 1974, The Health and Husbandry of the Domestic Buffalo, continua sendo um importante trabalho. Ao longo de sua carreira, Bill Cockrill usou suas habilidades naturais como comunicador para educar e informar as pessoas; tanto na difusão do conhecimento de criação quanto na descrição dos problemas que precisavam ser superados para aliviar a fome nos países em desenvolvimento.

Pela admiração e conhecimento da espécie associado à biografia fiquei fã e saudoso do Dr. Cockrill! Porém, continuei a pesquisar e a me indagar sobre a existência de escritos que pudesse descrever a espécie bubalina e o seu potencial na realidade do meu país, o Brasil. Eis que surge a ideia de pesquisar sobre a figura do professor Octavio Domingues, zootecnista, catedrático de zootecnia, embora agrônomo de formação. Não para minha surpresa descubro que o saudoso professor Octavio Domingues declarou em artigo na Revista “Suplemento Agrícola”, no dia 14 de setembro de 1955:

“Cada vez que me ponho em direto contacto com a criação  de búfalos, no Brasil, mais cresce aquela minha convicção, nascida em 1937, de que o búfalo deve merecer nossa particular atenção. Atenção do poder público, atenção dos técnicos, atenção dos criadores, realmente empenhados em criar riqueza, com as atividades pecuárias…. É minha convicção de que o búfalo pode e deve ser uma das nossas melhores fontes de leite, de carne, de couro. Ele poderá ser – em certas condições de meio – um competidor do zebu; e até um competidor vitorioso”.

 

De fato, o búfalo é uma das melhores fontes de leite, carne e couro ecomprovado competidor com outras espécies de ruminantes criadas no Brasil. E, segue o Professor Octavio Domingues:

“Os búfalos, que acabo de ver em costeio, em diversas fazendas do Vale do Rio Grande (Franca e Cássia) me convenceram de que só por incapacidade, ou vontade em contrário, é que esta espécie de gado não se integrará definitivamente na nossa paisagem campestre… na hora da ordenha vi com que facilidade uma búfala dá 5 litros de leite na estação seca, vivendo apenas de pasto”.

Como excelente pesquisador, estudioso, o Professor Octavio Domingues observou na sua expressão da “ciência da criação” a importância da “adaptação do animal ao clima, e deste àquele”. O cientista enxergou nos bubalinos criados no Brasil a força dessas básicas premissas. Quanto à produção de carne ele afirmou:

“Quando da minha visita a Franca, o preço do boi, para abater, era 250 cruzeiros a arroba. Pois bem, o marchante, com quem lá palestrei, oferece mais 10 cruzeiros por arroba, se se trata de búfalo, para corte. Perguntando-lhe qual a razão de assim proceder, explicou que quando corta carne de búfalo, a freguesia não reclama o peso, mesmo sem saber se é búfalo… A rês búfala, em igualdade de condições, é mais rica de musculatura do que o boi zebu. O búfalo tem a seu favor o fato de poder ser abatido mais cedo, pois em igualdade de condições e de idade pode apresentar-se mais pesado que o zebu”.

búfalo no jornal 2Infelizmente, é fato que 80 anos depois dos escritos do Professor Octavio os bubalinos ainda não ocupam como poderiam à nossa paisagem campestre. Definitivamente, os bubalinos criados no Brasil não “ocupam” o imaginário do povo brasileiro! Então, onde estão esses animais?

O rebanho bubalino mundial é da ordem de 200 milhões de cabeças, sendo que 57% do efetivo encontram-se na Índia. O Brasil possui, segundo o IBGE, aproximadamente 1,5 milhão de cabeças de búfalos. A Associação Brasileira de Criadores de Búfalos (ABCB) estima o rebanho bubalino brasileiro em aproximadamente 3 milhões de cabeças. Não menos importante do que a falta de exatidão nos números é constatar que muitos brasileiros desconhecem a espécie. É comum relatos de que nunca consumiram a carne de búfalos, que conhecem o búfalo como um “bisão”, além de imaginar a espécie como de comportamento bravio. Por outro lado, não incomum é observar a presença do Bubalus em linhas de abate nos mais variados rincões do país. Porém, uma vez obtida à carcaça a espécie de nobre potencial é condenada ao desvane. Como ouvi um dia desses de um criador: o búfalo no Brasil nasce búfalo, cresce búfalo e sai ao abate como boi! É óbvio que alguns criadores de búfalo infelizmente têm contribuído para essa tragédia. Irracional, portanto, uma vez que a carne de búfalos possui composição nutricional diferenciada, com cor, sabor e maciez similares a carne bovina, o que facilita a comercialização como sendo desta espécie. Porém, a carne de búfalo possui reduzidos teores de ácidos graxos e colesterol, além de gordura com baixo potencial aterogênico e trombogênico. Em condições racionais de manejo, novilhos bubalinos criados a pasto têm sido abatidos ao redor de 18 meses de idade com aproximadamente 16 arrobas. Quanto ao leite de búfala, este possui alto teor de sólidos totais, proteína, minerais e vitaminas, reduzidos teores de gordura saturada e colesterol, além de ser naturalmente composto pela caseína A 2 A 2 , esta associada à ausência de distúrbios digestivos quando da ingestão do leite e derivados lácteos. Na fabricação de derivados lácteos observa-se rendimento superior em até 100% quando comparado a outras espécies, o que permite que o leite seja comercializado pelo dobro do preço pago ao leite bovino.

Finalmente, confesso que durante algum tempo achei que poderia estar exagerando ao conjecturar que existiu e ainda existe uma campanha contra a espécie bubalina engajada na disseminação de falsas ideias e informações sobre o animal e os seus produtos. Porém, o achismo acima citado foi metamorfizado em convicção constatada na pesquisa e na convivência diária com a espécie e com a cadeia produtiva do búfalo no Brasil. Tudo isso notadamente acompanhado por uma sensação de alívio ao perceber que profissionais brilhantes como o Professor Cockrill e o Professor Octávio Domingues compartilharam do mesmo sentimento. Seguiremos trabalhando com ética e transparência para mostrar ao Brasil que O BÚFALO EXISTE. E ele é grande, literalmente.

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